Num debate sobre o erro médico, que teve lugar na sede do Delegação Regional do Oeste da Ordem dos Médicos, nas Caldas da Rainha, os clínicos mostraram-se preocupados com os cortes na saúde e com a possibilidade de haver mais erros devido à pressão que estão a ser sujeitos devido aos objectivos das gestões.
Pedro Coito, presidente da Delegação Regional do Oeste da Ordem, lembrou que “todos os anos morrem nos hospitais portugueses cerca de três mil pessoas devido a erros cometidos pelos profissionais de saúde. Quarenta e cinco por cento ocorrem durante as cirurgias, 20 a 30 por cento são falhas na prescrição de medicamentos”. Para este clínico ao serviço do Centro Hospitalar Oeste Norte, “o erro médico é a ponta do iceberg de uma gestão hospitalar desadequada. Os médicos estão sujeitos a situações de grande pressão, sendo obrigados a tomar decisões de urgência, que mais tarde podem vir a revelar-se erradas”.
Para Pedro Coito, muitos erros decorrem das “restrições económicas e de cortes cegos e insensatos determinados pelo poder político. Temo que haja um agravamento progressivo das condições de trabalho, ou melhor, da falta delas, e do atendimento dos doentes, que podem resultar em danos irreparáveis, comprometendo a idoneidade do Serviço Nacional de Saúde”. “A fronteira do razoável já foi ultrapassada, resvalamos em terrenos perigosos, os erros médicos podem vir a tomar proporções indesejáveis”, disse.
Durante a sessão que teve uma sala cheia e atenta, o primeiro dos convidados a falar foi o imagiologista, Francisco Rita, que considerou que “o erro médico é um tema pesado”. O imagiologista apresentou durante a sessão diversos casos de prescrições que levaram a alguns risos da plateia, por terem sido colegas ou os próprios a passar exames, para dizer também que actualmente um exame TAC tem mais de 600 imagens para serem analisadas e qualquer outro exame tem mais de mil imagens, numa condição diferente do passado e que “provoca cansaço” aos clínicos, que têm de “ver mais doentes, ver mais exames e ver mais análises”. Francisco Rita denunciou que o que se passa no CHON “é altamente problemático, com monitores sem qualidade para ver os exames”, o que pode induzir a um erro médico.
A segunda oradora foi Maria Perpétua Serralha, a anestesista que vincou o stress vivido no bloco operatório e que qualquer erro é uma catástrofe que leva à morte do doente. O orador que mais exemplos deu e mais chamou a atenção para os clínicos presentes foi José Fragata, cirurgião cardio torácico, que lembrou que as quedas nos hospitais “são um problema”. Para o médico, “a melhor coisa que um médico deve fazer é dizer a verdade ao doente”. O último orador foi o advogado João Correia, que apenas defende causas de clínicos, revelando que a sua função é “provar se o médico cumpriu ou não e se é ou não inimputável”, descrevendo que a profissão de médico é de risco. O causídico aconselhou os médicos “a escreverem muito bem tudo e fiscalizarem mais”.
Carlos Barroso (Jornal das Caldas, 03/11/2011)

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