terça-feira, 24 de maio de 2011

Doentes admitidos nos hospitais públicos devem usar pulseira com identificação

24.05.2011 - 11:27 Por Catarina Gomes (Público)

A Direcção-Geral de Saúde (DGS) quer que seja colocada uma pulseira de identificação aos doentes que dão entrada em hospitais públicos com o seu nome, data de nascimento e número de processo clínico, como forma de evitar erros clínicos.

DGS quer pulseiras nos doentes para evitar erros clínicos (Paulo Pimenta)

Segundo os últimos dados da Inspecção-Geral das Actividades em Saúde (IGAS), o erro de identificação do paciente está na origem da maior parte dos processos contra hospitais por alegada assistência médica deficiente.

As pulseiras deverão ser aplicadas no caso de doentes que dão entrada nas urgências, que são internados em hospitais e unidades de cuidados continuados de longa duração, em pacientes que vão realizar exames em hospitais, assim como cirurgias que não requerem internamento. Exclui-se o seu uso em doentes crónicos de psiquiatria.

A DGS refere que as falhas associadas à identificação de doentes estão na origem "de erros com medicação, transfusões, realização de meios complementares de diagnóstico e terapêutica e realização de actos a pessoas erradas". Não existem dados sobre erros médicos em Portugal, mas num inquérito realizado pela IGAS, divulgado no ano passado, dos 138 processos abertos contra 37 hospitais públicos (num universo de 56), entre 2005 e 2010, a situação mais referenciada são mesmo os erros de identificação do doente (17), seguidos de erros de processo com informação mal arquivada (16), erros de administração de produto ou dosagem (14), de etiquetagem incorrecta (13), de prescrição indevida (13), incidentes com transfusões sanguíneas (13) e erros na avaliação clínica do doente (11), entre outros.

Perguntar ao doente

O cirurgião José Fragata responde que tem pouco tempo para falar porque está prestes a entrar no bloco operatório para operar a válvula aórtica de um doente. No Hospital de Santa Marta, em Lisboa, onde é director do Serviço de Cirurgia Cardiotorácica, o uso da pulseira nos doentes já existe, mas não basta para prevenir o erro, sublinha, "a pulseira é um mecanismo para que, em qualquer momento, se possa conferir se a prescrição é aquela". O doente que vai operar terá a identificação no pulso, mas faz parte da lista de procedimentos perguntar-lhe, mesmo antes de ser anestesiado, a sua identificação. "É como entrar no avião e apertar o cinto". 

O médico, que é autor do livro Erro em Medicina, defende que é preciso criar regras, sensibilizar profissionais e depois pôr processos em prática. A existência das pulseiras está generalizada nos serviços pediátricos, mas nem todos os hospitais têm esta norma e, diz Fragata, "70 por cento dos erros de saúde são de comunicação", onde se incluem a troca dos doentes ou as trocas de medicação. Segundo os dados da IGAS, as especialidades onde são notificados mais erros são a Cirurgia, seguida da Ortopedia e da Ginecologia e Obstetrícia.

O que a DGS emitiu foi uma orientação que pretende "recordar aos serviços uma prática que pode estar esquecida. Nalguns sítios é prática, noutros não. Estamos a tentar uniformizar procedimentos", diz Alexandre Dinis, do Departamento de Qualidade na Saúde da DGS, notando que não existem dados sobre a sua aplicação. Diz ainda o documento que não se consideram dados de identificação fidedignos o número do quarto ou da cama e que a pulseira "não significa o abandono da identificação verbal".

António Vaz Carneiro, responsável pelo Centro de Investigação de Medicina Baseada na Evidência, da Faculdade de Medicina de Lisboa, diz que o uso da pulseira "devia ser uma prática generalizada há muito tempo", tal como já acontece nos serviços pediátricos, justificando-se cada vez mais em face de "uma população cada vez mais débil e alterada". Uma das situações onde "é particularmente fácil haver troca de nomes, por haver maior movimento, são as urgências", notando que nas do Hospital de Santa Maria (em Lisboa) já é prática aplicar-se uma etiqueta na roupa ou no pulso.

Não se sabe quantos erros médicos ocorrem em Portugal, mas a DGS quer que, até ao final do ano, esteja no terreno o já muito falado Sistema de Notificação de Eventos Adversos. Trata-se de um programa voluntário em que qualquer profissional de saúde pode notificar um erro de forma anónima. O objectivo "é que o serviço aprenda com o erro", o que significa que no sistema informático nem o notificador nem o doente eventualmente lesado são identificados. "Se não for anónimo ninguém adere. É depois dever da administração fazer com que aquele erro nunca mais volte a acontecer. O objectivo é pedagógico e preventivo", explica Alexandre Dinis. Há unidades que têm sistemas de prevenção de riscos - segundo a IGAS só 15 num universo de 56 hospitais responderam afirmativamente -, mas o objectivo é que seja uma base nacional.

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Garcia de Orta: Médica e enfermeira envolvidas em troca de medicamentos acusadas pelo MP

05.05.2011 - 16:35 Por Lusa


O Ministério Público (MP) deduziu acusação contra a médica e contra a técnica de audiologia envolvidas na troca de medicamentos que a 17 de Junho de 2010 afectou duas crianças no hospital Garcia de Orta (HGO), em Almada.

O caso remonta a 17 de Junho de 2010, quando duas crianças foram afectadas por uma troca de medicamentos (Fábio Teixeira)

De acordo com Procuradoria-Geral Distrital de Lisboa (PGDL) foram imputados dois crimes às arguidas: o crime de ofensa à integridade física por negligência, que pode, dependendo da gravidade da situação, ser punido com pena de prisão até dois anos ou com pena de multa até 240 dias; e o crime de ofensa à integridade física grave, punível com pena de prisão de 2 a 10 anos.

A PGDL informou que o conselho de administração do HGO, as duas arguidas e os pais das crianças não chegaram a acordo sobre a indemnização e que, nesse sentido, “a possibilidade de aplicação da suspensão provisória do processo [saiu] gorada”.

“O MP deduziu acusação contra a médica que administrou o medicamento e [contra] a técnica que preparou a mesa de trabalho para os exames auditivos”, lê-se em nota publicada hoje no site da PGDL.

A mesma nota informa que “foi proferido despacho de arquivamento relativamente a um terceiro arguido, enfermeiro do serviço de Otorrinolaringologia, piso onde os factos ocorreram”,

Contactado pela agência Lusa, o conselho de administração do hospital afirmou que não se pronuncia sobre processos em curso.

O caso remonta a 17 de Junho de 2010, quando duas crianças de três anos e de 18 meses foram afectadas por uma troca de medicamentos enquanto realizavam um exame de diagnóstico no serviço de Otorrinolaringologia do HGO. O acidente provocou queimaduras nos intestinos das duas crianças e também na traqueia e no esófago de uma delas.

Na sequência do acidente, o hospital instaurou um inquérito para apurar responsabilidades.

A 12 de Outubro do ano passado, em conferência de imprensa, a directora clínica do HGO, Ana França, anunciou que a médica e a técnica de audiologia envolvidas na troca de medicamentos seriam punidas com penas de repreensão escrita, que ficariam registadas no cadastro profissional de ambas.

A 28 de Janeiro deste ano o MP anunciou que constituíra e interrogara três arguidos neste caso.

Nesse dia, fonte do gabinete de relações públicas do HGO disse à Lusa que se tinha confirmado, na sequência de um exame, “e como já se previa, que o incidente não provocou danos irreversíveis nas crianças”.

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Dois passos simples para corrigir uma não-conformidade intencional

Por Steve Harden 

No seu trabalho, a maioria das pessoas fazem a maior parte das coisas que deveriam fazer, a maior parte do tempo. Infelizmente, às vezes, mesmo os bons profissionais fazem as coisas mal feitas, ou não as fazem de todo. É nesses momentos que os seus pacientes correm maiores riscos. Supondo que o desempenho errado não foi apenas um erro humano acidental, geralmente há apenas quatro razões para as pessoas não façam aquilo que é suposto fazerem:

1. Não sabem o que é suposto fazer (as expectativas nunca ficaram claras) 
2. Sabem o quê, mas não sabem como (nunca foram devidamente treinados) 
3. Sabem o quê e como, mas não podem fazê-lo (têm limitações físicas ou cognitivas que as impedem de fazer o trabalho) 
4. Sabem o quê, como, e podem fazê-lo - mas optaram por não o fazer. 

Esta última razão que leva as pessoas a não fazerem o que você quer é o que nos traz maior frustração e angústia. Parece tão obstinada e tão desnecessária, mas consome muito do nosso tempo e energia para corrigir. Mas há soluções! O coach de gestão e especialista Ferdinand Fournies conduziu uma pesquisa de quinze anos, envolvendo mais de 20.000 gestores. O seu trabalho revelou que o motivo mais comum para as pessoas optarem por não fazer o trabalho da maneira que você quer que ele seja feito é por não compreenderem o porquê de o terem de fazer assim. Fournies percebeu que nem todos os gestores se davam ao trabalho de explicar a razão de fazer o trabalho de determinada forma, quando da sua formação para fazer uma tarefa ou seguir um processo. 

Eu acho que isso é especialmente verdadeiro na área da saúde onde as pessoas são obrigadas a fazer coisas de uma certa maneira, por razões que são muito claras para os administradores, gestores, responsáveis de segurança e de risco e directores de qualidade, mas não são tão claras para os funcionários. 

Felizmente, a pesquisa Fournies identificou dois simples passos que se podem dar para resolver este tipo de não conformidade intencional. 

Passo 1. Fornecer informações sobre o porquê de uma tarefa, processo ou protocolo ser importante. O PORQUÊ tem quatro partes distintas, e todas as quatro partes devem ser explicitamente explicadas à sua equipa durante o processo de formação. 

  • Forneça uma descrição clara do benefício para a organização e para o paciente de o fazer bem feito; 
  • Forneça uma descrição clara dos danos para a organização e para o paciente de o fazer mal; 
  • Forneça uma descrição detalhada do benefício ao funcionário de o fazer correctamente, bem como ... 
  • Forneça uma descrição das consequências para o funcionário de o fazer de forma errada. 


Passo 2. Quando você quer que as pessoas mudem com o propósito de resolver problemas, melhorando a qualidade ou a segurança, você deve fazer estas cinco coisas no seu processo de formação: 

  • Explique o problema em pormenor; 
  • Explique o objectivo em detalhe; 
  • Discuta detalhadamente os passos específicos da solução; 
  • Explique os benefícios do sucesso (benefício para eles, a organização e os pacientes); 
  • Explique a agonia da derrota (consequências para eles e danos para o paciente); 

Ambos os passos são muito simples, mas muitas vezes negligenciados. Às vezes, a solução mais eficaz é a solução mais simples. 

As pessoas vão fazer as coisas tal como você manda, apenas enquanto as está a observar. Mas você não pode e não deve estar a observá-las o tempo todo. A razão para fazer as coisas de certa forma deve ser suficientemente importante para o seu pessoal, de forma a influenciar as suas decisões de como 
as executar quando o chefe não está a olhar. O seguimento destes dois passos vai ajudá-lo a influenciar as suas escolhas, aumentar o seu cumprimento e a segurança dos seus pacientes.