sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

2008 - A Check-List de Segurança Cirúrgica da OMS

(The Lancet, Volume 372, Issue 9632, Page 1, 5 July 2008)

Os erros cirúrgicos são uma importante causa de morbidade e mortalidade. Nos países desenvolvidos, 3-16% dos pacientes submetidos a uma importante cirurgia terão uma complicação grave, metade das quais poderia ter sido evitada. Os números dos países em desenvolvimento são menos fiáveis, mas acredita-se que na África subsaariana, um em cada 150 pacientes que recebe anestesia geral, morre. Em todo o mundo, a mortalidade cirúrgica é de mais de 1 milhão de mortes por ano. Portanto, a Check-List do programa "Cirurgia Segura Salva Vidas", lançada a 25 de Junho (de 2008) pela Aliança Mundial para Segurança do Paciente, da OMS, é bem-vinda.

Metade dos eventos adversos em pacientes cirúrgicos ocorre na sala de cirurgia, que é para onde a lista foi concebida para ser utilizada. Os 20 itens focam-se no trabalho em equipa, comunicação, adesão às boas práticas, e antecipação de eventos adversos. O que é muito importante, dez dos itens relacionam-se com os preparativos antes da indução da anestesia, e outros cinco antes de a incisão ser feita. Fulcral para a Check-List é a repetição dos elementos básicos de confirmação da identidade do paciente e da localização e natureza do procedimento. Que tais controlos não sejam feitos de forma universal e com precisão chocará os pacientes, e mostra a necessidade de tal lista. Mas, para melhorar os resultados, as questões da Check-List terão de ser participativas e não retóricas, e a sua ênfase no trabalho em equipa traduzido numa prática que promova a responsabilidade colectiva de segurança.

O programa "Cirurgia Segura Salva Vidas" é uma colaboração de mais de 200 sociedades médicas e ministérios da saúde, liderada por Atul Gawande da Harvard School of Public Health. A importância da cirurgia na saúde pública é enfatizada pela estimativa de Gawande, e colegas, do volume global de cirurgia, publicado pela revista The Lancet, para coincidir com o lançamento da Check-List. O estudo estima que 234 milhões de procedimentos cirúrgicos relevantes são realizados a cada ano, cerca de um por cada 25 pessoas, daí o potencial para os cirurgiões prevenirem a morbidade usando a lista poder ser vasto.

Três países - Reino Unido, Irlanda e Jordânia - planeiam implementar as Check-Lists em todos os hospitais. Tal entusiasmo tem que ser justificado por provas, porque as Check-Lists vão ter custos de oportunidade. Oito hospitais, representando todas as seis regiões da OMS, pilotaram o projecto. Os resultados dos primeiros 1000 pacientes mostram uma adesão dobrada aos 20 pontos e deverão ser comunicados em breve. Mas desfechos sólidos que sejam significativos para os pacientes e os médicos devem seguir.

A "Aliança Mundial para Segurança do Paciente" ajuda os médicos a melhorar a segurança dos pacientes de várias maneiras. A cada 2 anos, a Aliança publica um documento de discussão que relata os progressos, apresenta novas ideias, e lança um desafio emblemático sobre a segurança dos pacientes. O desafio deste ano é a Check-List da "Cirurgia Segura Salva Vidas". O desafio de 2006 foi uma campanha de higienização das mãos, "Cuidados limpos são Cuidados Seguros", e em 2010 o desafio será o combate à resistência antimicrobiana. Além disso, um currículo para a faculdade de medicina em Segurança do Paciente está a ser desenvolvido e um quadro internacional de académicos de Segurança do Paciente está a ser formado em parceria com a Universidade Johns Hopkins. Finalmente, a OMS está a desenvolver uma classificação internacional para a Segurança do Paciente que vai harmonizar as definições para facilitar a comunicação e pesquisa.

Apesar destes e de outros esforços, nos 8 anos desde que o Instituto de Medicina publicou "Errar é humano", o erro médico continua a ser comum, caro e muitas vezes letal. Ao ser proactiva na minimização do risco de eventos adversos, a Check-List cirúrgica contribuirá, provavelmente, para melhores resultados, mas vai fazê-lo perifericamente. Para se chegar ao coração da Segurança do Pacientes é requerido um entendimento das circunstâncias em que ocorrem as práticas inseguras. Como os eventos adversos surgem frequentemente numa relação baseada na confiança dos pacientes e por médicos numa genuína vontade para ajudar, podem-se criar situações embaraçosas, que são agravadas quando o paciente, em seguida, conta com os mesmos médicos para gerir as consequências. Investigar a origem do erro é um processo delicado, mas é essencial para um cuidado informado e para evitar problemas semelhantes no futuro. A dificuldade é que a investigação depende de uma cultura de segurança, em que os erros possam ser abertamente abordados num ambiente de aprendizagem - e essas culturas ainda estão na sua infância.

A Check-List da "Cirurgia Segura Salva Vidas" proporciona ao pessoal do Bloco Operatório um instrumento concreto para promover a segurança e fornece ao pessoal não cirúrgico um recordatório de que a melhoria da segurança pode ser tão simples como tomar algum tempo para garantir que o paciente recebe a intervenção correcta. Mas a Check-List não é um fim em si mesmo. O seu valor real encontra-se no incentivo à comunicação entre as equipas e a estimular mais reformas para trazer uma cultura de segurança para o centro do atendimento dos pacientes.

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